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16 Jul 2008 
OS 10 MANDAMENTOS DO CHIMARRÃO

1 - NÃO PEÇAS AÇÚCAR NO MATE

O gaúcho aprende desde piazito que e por que o chimarrão se chama também mate amargo ou, mais intimamente, amargo apenas. Mas, se tu és dos que vêm de outros pagos, mesmo sabendo poderás achar que é amargo demais e cometer o maior sacrilégio que alguém pode imaginar neste pedaço do Brasil: pedir açúcar. Pode-se pôr na água ervas exóticas, cana, frutas, cocaína, feldspato, dólar etc, mas jamais açúcar. O gaúcho pode ter todos os defeitos do mundo mas não merece ouvir um pedido desses. Portanto, tchê, se o chimarrão te parece amargo demais não hesites: pede uma Coca-Cola com canudinho. Tu vais te sentir bem melhor.

2 - NÃO DIGAS QUE O CHIMARRÃO É ANTI-HIGIÊNICO

Tu podes achar que é anti-higiênico pôr a boca onde todo mundo põe. Claro que é. Só que tu não tens o direito de proferir tamanha blasfêmia em se tratando do chimarrão. Repito: pede uma Coca-Cola com canudinho. O canudo é puro como água de sanga (pode haver coliformes fecais e estafilococos dentro da garrafa, não no canudo).

3 - NÃO DIGAS QUE O MATE ESTÁ QUENTE DEMAIS

Se todos estão chimarreando sem reclamar da temperatura da água, é porque ela é perfeitamente suportável por pessoas normais. Se tu não és uma pessoa normal, assume e não te fresqueies. Se, porém, te julgas perfeitamente igual às demais, faze o seguinte: vai para o Paraguai. Tu vais adorar o chimarrão de lá.

4 - NÃO  DEIXES UM MATE PELA METADE

Apesar da grande semelhança que existe entre o chimarrão e o cachimbo da paz, há diferenças fundamentais. Com o cachimbo da paz, cada um dá uma tragada e passa-o adiante. Já o chimarrão, não. Tu deves tomar toda a água servida, até ouvir o ronco de cuia vazia. A propósito, leia logo o mandamento seguinte.
 
5 - NÃO TE ENVERGONHES DO "RONCO" NO FIM DO MATE

Se, ao acabar o mate, sem querer fizeres a bomba "roncar", não te envergonhes. Está tudo bem, ninguém vai te julgar mal-educado. Este negócio de chupar sem fazer barulho vale para Coca-Cola com canudinho, que tu podes até tomar com o dedinho levantado.

6 - NÃO MEXAS NA BOMBA

A bomba do chimarrão pode muito bem entupir, seja por culpa dela mesma, da erva ou de quem preparou o mate. Se isso acontecer, tens todo o direito de reclamar. Mas, por favor, não mexas na bomba. Fale com quem lhe ofereceu o mate ou com quem lhe passou a cuia. Mas não mexas na bomba, não mexas na bomba e, sobretudo, não mexas na bomba.

7 - NÃO ALTERES A ORDEM EM QUE O MATE É SERVIDO

Roda de chimarrão funciona como cavalo de leiteiro. A cuia passa de mão em mão, sempre na mesma ordem. Para entrar na roda, qualquer hora serve mas, depois de entrar, espera sempre tua vez e não queiras favorecer ninguém, mesmo que seja a mais prendada prenda do Estado.

8 - NÃO "DURMAS" COM A CUIA NA MÃO

Tomar mate solito é um excelente meio de meditar sobre as coisas da vida. Tu mateias sem pressa, matutando, recordando... E, às vezes, te surpreende até imaginando que a cuia não é cuia mas o quente seio moreno daquela chinoca faceira que apareceu no baile do Gaudêncio... Agora, tomar chimarrão numa roda é mui diferente. Aí o fundamental não é meditar e sim integrar-se à roda. Numa roda de chimarrão, tu falas, discutes, ri, xingas, enfim, tu participas de uma comunidade em confraternização. Só que esta tua participaçâo não pode ser levada ao extremo de te fazer esquecer da cuia que está em tua mão. Fala quanto quiseres mas não esqueças de tomar teu mate, que a moçada tá esperando.
 
9 - NÃO CONDENES O DONO DA CASA POR TOMAR O 1º MATE

Se tu julgas o dono da casa um grosso por preparar o chimarrão e tomar ele próprio o primeiro, saibas que grosso é tu. O pior mate é o primeiro e quem o toma está te prestando um favor.

10 - NÃO DIGAS QUE CHIMARRÃO DÁ CÂNCER NA GARGANTA

Pode até dar. Mas não vai ser tu, que pela primeira vez pegas na cuia, que irás dizer, com ar de entendido, que chimarrão é cancerígeno. Se aceitaste o mate que te ofereceram, toma e esquece o câncer. Se não der para esquecer, faze o seguinte: pede uma Coca-Cola com canudinho, que ela... etc, etc.

DICAS

Se estas conhecendo o chimarrão agora, aí vai alguns termos que são usados em uma Roda de Chimarrão:

Amargo: Chimarrão. Cambona: espécie de chaleira usada para esquentar a água.

Cevar: é o preparo. Matear: o mesmo que sorver.

Roncar: Terminar de tomar o mate

Sorver: saborear, o ato de beber o chimarrão.

Saiba também: - Nunca deixe ferver a água que estiver esquentando para o chimarrão, pois teu mate será de ma qualidade. Saibas que, quando estiver chiando a cambona a água estará na temperatura ideal. 

Quem cevar o mate coordenará a Roda de chimarrão, seguindo sempre pela sua mão direita. 

Passe sempre o chimarrão com a mão direita,
caso esteja ocupada e passares com a esquerda, fale: Desculpe a mão! Então a pessoa que recebe o mate responde: É a mesma do coração! 

Não esqueças que o primeiro mate é sempre do cevador. É uma “lei”. 

Só passe a cuia se realmente estiver terminado de tomar, ou seja se a cuia “roncar”. 

Não agradeças o mate se ainda tiver água.

MAIS DICAS

CURTINDO A CUIA... Se ganhaste uma cuia nova, não faça mate diretamente nela. Tu não podes esquecer que a cuia de porongo deve ser “curtida” antes. Como fazer?

Encha a cuia de erva e água quente, podes acrescentar também à erva cinza vegetal.

Deve ficar assim por dois ou três dias. Deixes sempre bem úmido para melhor cutir a cuia.

Depois do tempo estabelecido, retire a erva raspando bem a cuia. Tu vais notar que a cuia ficará com cara de que é muito usada.
 
Enxágües a cuia e pronto! Podes cevar o mate!

Admin · 23 vistos · 2 comentários
16 Jul 2008 
TRADIÇÃO GAÚCHA, O CHIMARRÃO

Chimarrão A Tradição do chimarrão é antiga, símbolo da Hospitalidade Gaúcha, de origem indígena (Guaranis), o chimarrão autêntico, sem açúcar, toma-se em uma cuia de porongo, hoje, por uma bomba de metal. Em seus primórdios o chimarrão era consumido através de um “canudo” de taquara, chamado Taquapy. O chimarrão, por sua vez, também tem suas propriedades desintoxicantes e rico em cálcio e ferro. A Erva Mate, Ilex paraguariensis, é uma árvore nativa, um dos símbolos ecológicos do Rio Grande do Sul. Até chegarmos ao chimarrão, propriamente dito, a Erva Mate passa por vários processos: I – Colheita: Feita por mais ou menos cinco pessoas, denominadas taifeiros. Um deles sobe até a árvore para cortar alguns galhos da planta, enquanto os outros recolhem os galhos colocando-os em um balaio de taquara que é transportado até o Raído (utilizado para facilitar o transporte), feito de taquara ou cipó. II – Secagem: Chegado os galhos até o Carijo ou Barbaquá, uma espécie de galpão, totalmente fechado, somente uma abertura, a porta. Neste galpão existe uma espécie de churrasqueira para secar as folhas. No Carijo, a secagem é indireta, ou seja, a folha não tem contato direto com o fogo do braseiro. Já no Barbaquá, a secagem é direta, ao contrário da anterior. III – Cancheamento ou Trituração: Pode ser feita por duas técnicas, uma usando o Soque, mais atual, e outra usando o Monjolo. Soque: movido à tração animal ou moinho d’água. Hoje são grandes maquinas movidas a eletricidade. Monjolo: bem mais ultrapassado, o monjolo é constituído por três partes, bica d’água, cocho do monjolo e o pilão. A bica chegava a ter quilômetros de distância até o local de produção, onde estava instalado o cocho para receber a água, que vinha de uma cachoeira (mais comum), para ter força de mover-se para cima e para baixo, triturando as folhas da Erva mate que estavam no pilão. Nestas duas técnicas, a erva pode ser moído grosso ou fino vai do seu gosto. IV – Consumo: Pronto, tua erva para chimarrão está no ponto, basta ser feito o empacotamento e daí direto para a cuia. *Estes quatro processos, hoje, são mais modernizados, mas continuam os mesmos.

Admin · 44 vistos · 1 comentário
16 Jul 2008 
A MAIS DE 50 ANOS NO BRASIL


Admin · 373 vistos · 2 comentários
16 Jul 2008 
Índios do Brasil Sociedade indígena, escravidão e miscigenação, cultura indígena, índios brasileiros, educação indígena, arte indígena, tribos indígenas do Brasil, línguas indígenas, contato entre índios e portugueses. Introdução Historiadores afirmam que antes da chegada dos europeus à América havia aproximadamente 100 milhões de índios no continente. Só em território brasileiro, esse número chegava 5 milhões de nativos, aproximadamente. Estes índios brasileiros estavam divididos em tribos, de acordo com o tronco lingüístico ao qual pertenciam: tupi-guaranis (região do litoral), macro-jê ou tapuias (região do Planalto Central), aruaques (Amazônia) e caraíbas (Amazônia ). Atualmente, calcula-se que apenas 400 mil índios ocupam o território brasileiro, principalmente em reservas indígenas demarcadas e protegidas pelo governo. São cerca de 200 etnias indígenas e 170 línguas. Porém, muitas delas não vivem mais como antes da chegada dos portugueses. O contato com o homem branco fez com que muitas tribos perdessem sua identidade cultural. A sociedade indígena na época da chegada dos portugueses. O primeiro contato entre índios e portugueses em 1500 foi de muita estranheza para ambas as partes. As duas culturas eram muito diferentes e pertenciam a mundos completamente distintos. Sabemos muito sobre os índios que viviam naquela época, graças a Carta de Pero Vaz de Caminha (escrivão da expedição de Pedro Álvares Cabral ) e também aos documentos deixados pelos padres jesuítas. Os indígenas que habitavam o Brasil em 1500 viviam da caça, da pesca e da agricultura de milho, amendoim, feijão, abóbora, bata-doce e principalmente mandioca. Esta agricultura era praticada de forma bem rudimentar, pois utilizavam a técnica da coivara (derrubada de mata e queimada para limpar o solo para o plantio). Os índios domesticavam animais de pequeno porte como, por exemplo, porco do mato e capivara. Não conheciam o cavalo, o boi e a galinha. Na Carta de Caminha é relatado que os índios se espantaram ao entrar em contato pela primeira vez com uma galinha. As tribos indígenas possuíam uma relação baseada em regras sociais, políticas e religiosas. O contato entre as tribos acontecia em momentos de guerras, casamentos, cerimônias de enterro e também no momento de estabelecer alianças contra um inimigo comum. Os índios faziam objetos utilizando as matérias-primas da natureza. Vale lembrar que índio respeita muito o meio ambiente, retirando dele somente o necessário para a sua sobrevivência. Desta madeira, construíam canoas, arcos e flechas e suas habitações (ocas ). A palha era utilizada para fazer cestos, esteiras, redes e outros objetos. A cerâmica também era muito utilizada para fazer potes, panelas e utensílios domésticos em geral. Penas e peles de animais serviam para fazer roupas ou enfeites para as cerimônias das tribos. O urucum era muito usado para fazer pinturas no corpo. A organização social dos índios Entre os indígenas não há classes sociais como a do homem branco. Todos têm os mesmo direitos e recebem o mesmo tratamento. A terra, por exemplo, pertence a todos e quando um índio caça, costuma dividir com os habitantes de sua tribo. Apenas os instrumentos de trabalho (machado, arcos, flechas, arpões) são de propriedade individual. O trabalho na tribo é realizado por todos, porém possui uma divisão por sexo e idade. As mulheres são responsáveis pela comida, crianças, colheita e plantio. Já os homens da tribo ficam encarregados do trabalho mais pesado: caça, pesca, guerra e derrubada das árvores. Duas figuras importantes na organização das tribos são o pajé e o cacique. O pajé é o sacerdote da tribo, pois conhece todos os rituais e recebe as mensagens dos deuses. Ele também é o curandeiro, pois conhece todos os chás e ervas para curar doenças. Ele que faz o ritual da pajelança, onde evoca os deuses da floresta e dos ancestrais para ajudar na cura. O cacique, também importante na vida tribal, faz o papel de chefe, pois organiza e orienta os índios. A educação indígena é bem interessante. Os pequenos índios, conhecidos como curumins, aprender desde pequenos e de forma prática. Costumam observar o que os adultos fazem e vão treinando desde cedo. Quando o pai vai caçar, costuma levar o indiozinho junto para que este aprender. Portanto a educação indígena é bem pratica e vinculada a realidade da vida da tribo indígena. Quando atinge os 13 os 14 anos, o jovem passa por um teste e uma cerimônia para ingressar na vida adulta. Os contatos entre indígenas e portugueses Como dissemos, os primeiros contatos foram de estranheza e de certa admiração e respeito. Caminha relata a troca de sinais, presentes e informações. Quando os portugueses começam a explorar o pau-brasil das matas, começam a escravizar muitos indígenas ou a utilizar o escambo. Davam espelhos, apitos, colares e chocalhos para os indígenas em troca de seu trabalho. O canto que se segue foi muito prejudicial aos povos indígenas. Interessados nas terras, os portugueses usaram a violência contra os índios. Para tomar as terras, chegavam a matar os nativos ou até mesmo transmitir doenças a eles para dizimar tribos e tomar as terras. Esse comportamento violento seguiu-se por séculos, resultando no pequenos número de índios que temos hoje. A visão que o europeu tinha a respeito dos índios era eurocêntrica. Os portugueses achavam-se superiores aos indígenas e, portanto, deveriam dominá-los e colocá-los ao seu serviço. A cultura indígena era considera pelo europeu como sendo inferior e grosseira. Dentro desta visão, acreditavam que sua função era convertê-los ao cristianismo e fazer os índios seguirem a cultura européia. Foi assim, que aos poucos, os índios foram perdendo sua cultura e também sua identidade. Tupinambás praticando um ritual de canibalismo Canibalismo Algumas tribos eram canibais como, por exemplo, os tupinambás que habitavam o litoral da região sudeste do Brasil. A antropofagia era praticada, pois acreditavam que ao comerem carne humana do inimigo estariam incorporando a sabedoria, valentia e conhecimentos. Desta forma, não se alimentavam da carne de pessoas fracas ou covardes. A prática do canibalismo era feira em rituais simbólicos. Religião Indígena Cada nação indígena possuía crenças e rituais religiosos diferenciados. Porém, todas as tribos acreditavam nas forças da natureza e nos espíritos dos antepassados. Para estes deuses e espíritos, faziam rituais, cerimônias e festas. O pajé era o responsável por transmitir estes conhecimentos aos habitantes da tribo. Algumas tribos chegavam a enterrar o corpo dos índios em grandes vasos de cerâmica, onde além do cadáver ficavam os objetos pessoais. Isto mostra que estas tribos acreditavam numa vida após a morte. Principais etnias indígenas brasileiras na atualidade e população estimada Ticuna (35.000), Guarani (30.000), Caiagangue (25.000), Macuxi (20.000), Terena (16.000), Guajajara (14.000), Xavante (12.000), Ianomâmi (12.000), Pataxó (9.700), Potiguara (7.700). Fonte: Funai (Fundação Nacional do Índio).

Admin · 108 vistos · 1 comentário
16 Jul 2008 


A Carteira




de Machado de Assis



...De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira.



Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o



viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe



disse rindo:



— Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.



— É verdade, concordou Honório envergonhado.



Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem



de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o



bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório,



que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as



circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a



princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida



da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia



remédio senão ir descontando o futuro.



Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos



empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer,



e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma



voragem.



—Tu agora vais bem, não? dizia-lhe ultimamente o Gustavo C..., advogado e



familiar da casa.



— Agora vou, mentiu o Honório.



A verdade é que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes



remissos; por desgraça perdera ultimamente um processo, com que fundara grandes



esperanças. Não só recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa



à reputação jurídica; em todo caso, andavam mofinas nos jornais.



D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons ou maus



negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como se nadasse em



um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa dele,



dizia uma ou duas pilhérias, ele respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os



trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o



Gustavo escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente



falavam de política.



Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro



anos, e viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.



— Nada, nada.



Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria.



Mas as esperanças voltavam com facilidade. A idéia de que os dias



melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com, trinta e quatro




anos; era o princípio da carreira: todos os princípios são difíceis. E toca a trabalhar,



a esperar, a gastar, pedir fiado ou: emprestado, para pagar mal, e a más horas.



A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de



carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor,



o credor não lhe punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda,



com um gesto mau, e Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da



tarde.



Tinha-se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao



enfiar pela Rua. da Assembléia é que viu a carteira no chão, apanhou-a, meteu no



bolso, e foi andando.



Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada; foi andando,



andando, andando, até o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes, —



enfiou depois pela Rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana.



Sem saber como, achou-se daí a pouco no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda,



sem saber como, entrou em um Café. Pediu alguma cousa e encostou-se à parede,



olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia não achar nada, apenas



papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das



reflexões, a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achasse.



Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão



irônica e de censura. Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida?



Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia



levar a carteira à polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto,



vinham os apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a



cocheira. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido,



ninguém iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.



Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com



medo, quase às escondidas; abriu-a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro;



não contou, mas viu duas notas de duzentos mil-réis, algumas de cinqüenta e vinte;



calculou uns setecentos mil-réis ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida



paga; eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os



olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar-se-ia



consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guardá-la.



Mas daí a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o



dinheiro. Contar para quê? era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e



trinta mil-réis. Honório teve um calafrio.



Ninguém viu, ninguém soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte,



um anjo... Honório teve pena de não crer nos anjos...



Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava,



passava-o pelas mãos; depois, resolvia o contrário, não usar do achado, restituí-lo.



Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.



"Se houver um nome, uma indicação qualquer, não posso utilizar-me do



dinheiro," pensou ele.



Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que não abriu,



bilhetinhos dobrados, que não leu, e por fim um cartão de visita; leu o nome; era do



Gustavo. Mas então, a carteira?... Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente



do amigo. Voltou ao interior; achou mais dous cartões, mais três, mais cinco. Não



havia duvidar; era dele.



A descoberta entristeceu-o. Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um



ato ilícito, e, naquele caso, doloroso ao seu coração porque era em dano de um



amigo. Todo o castelo levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a




última gota de café, sem reparar que estava frio. Saiu, e só então reparou que era



quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns



dous empurrões, mas ele resistiu.



"Paciência, disse ele consigo; verei amanhã o que posso fazer."



Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado e a própria



D. Amélia o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava



alguma cousa.



— Nada.



— Nada?



— Por quê?



— Mete a mão no bolso; não te falta nada?



— Falta-me a carteira, disse o Gustavo sem meter a mão no bolso.



— Sabes se alguém a achou?



— Achei-a eu, disse Honório entregando-lha.



Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo.



Esse olhar foi para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a



necessidade, era um triste prêmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe



perguntasse onde a achara, deu-lhe as explicações precisas.



— Mas conheceste-a?



— Não; achei os teus bilhetes de visita.



Honório deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar.



Então Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou



um dos bilhetinhos, que o outro não quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amélia,



que, ansiosa e trêmula, rasgou-o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.



FIM




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