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16 Jul 2008 - 14:06:01
OBRA DE MACHADO DE ASSIS - A CARTEIRA


A Carteira




de Machado de Assis



...De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira.



Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o



viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe



disse rindo:



— Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.



— É verdade, concordou Honório envergonhado.



Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem



de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o



bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório,



que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as



circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a



princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida



da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia



remédio senão ir descontando o futuro.



Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos



empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer,



e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma



voragem.



—Tu agora vais bem, não? dizia-lhe ultimamente o Gustavo C..., advogado e



familiar da casa.



— Agora vou, mentiu o Honório.



A verdade é que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes



remissos; por desgraça perdera ultimamente um processo, com que fundara grandes



esperanças. Não só recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa



à reputação jurídica; em todo caso, andavam mofinas nos jornais.



D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons ou maus



negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como se nadasse em



um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa dele,



dizia uma ou duas pilhérias, ele respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os



trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o



Gustavo escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente



falavam de política.



Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro



anos, e viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.



— Nada, nada.



Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria.



Mas as esperanças voltavam com facilidade. A idéia de que os dias



melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com, trinta e quatro




anos; era o princípio da carreira: todos os princípios são difíceis. E toca a trabalhar,



a esperar, a gastar, pedir fiado ou: emprestado, para pagar mal, e a más horas.



A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de



carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor,



o credor não lhe punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda,



com um gesto mau, e Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da



tarde.



Tinha-se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao



enfiar pela Rua. da Assembléia é que viu a carteira no chão, apanhou-a, meteu no



bolso, e foi andando.



Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada; foi andando,



andando, andando, até o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes, —



enfiou depois pela Rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana.



Sem saber como, achou-se daí a pouco no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda,



sem saber como, entrou em um Café. Pediu alguma cousa e encostou-se à parede,



olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia não achar nada, apenas



papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das



reflexões, a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achasse.



Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão



irônica e de censura. Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida?



Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia



levar a carteira à polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto,



vinham os apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a



cocheira. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido,



ninguém iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.



Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com



medo, quase às escondidas; abriu-a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro;



não contou, mas viu duas notas de duzentos mil-réis, algumas de cinqüenta e vinte;



calculou uns setecentos mil-réis ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida



paga; eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os



olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar-se-ia



consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guardá-la.



Mas daí a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o



dinheiro. Contar para quê? era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e



trinta mil-réis. Honório teve um calafrio.



Ninguém viu, ninguém soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte,



um anjo... Honório teve pena de não crer nos anjos...



Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava,



passava-o pelas mãos; depois, resolvia o contrário, não usar do achado, restituí-lo.



Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.



"Se houver um nome, uma indicação qualquer, não posso utilizar-me do



dinheiro," pensou ele.



Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que não abriu,



bilhetinhos dobrados, que não leu, e por fim um cartão de visita; leu o nome; era do



Gustavo. Mas então, a carteira?... Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente



do amigo. Voltou ao interior; achou mais dous cartões, mais três, mais cinco. Não



havia duvidar; era dele.



A descoberta entristeceu-o. Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um



ato ilícito, e, naquele caso, doloroso ao seu coração porque era em dano de um



amigo. Todo o castelo levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a




última gota de café, sem reparar que estava frio. Saiu, e só então reparou que era



quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns



dous empurrões, mas ele resistiu.



"Paciência, disse ele consigo; verei amanhã o que posso fazer."



Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado e a própria



D. Amélia o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava



alguma cousa.



— Nada.



— Nada?



— Por quê?



— Mete a mão no bolso; não te falta nada?



— Falta-me a carteira, disse o Gustavo sem meter a mão no bolso.



— Sabes se alguém a achou?



— Achei-a eu, disse Honório entregando-lha.



Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo.



Esse olhar foi para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a



necessidade, era um triste prêmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe



perguntasse onde a achara, deu-lhe as explicações precisas.



— Mas conheceste-a?



— Não; achei os teus bilhetes de visita.



Honório deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar.



Então Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou



um dos bilhetinhos, que o outro não quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amélia,



que, ansiosa e trêmula, rasgou-o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.



FIM




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